Postada em 18 de Julho de 2017 às 19h16min

Falta-nos testas para tatuar nossas vergonhas

Por Junio Garcia

Por Por Junio Garcia

Nessas últimas semanas vi uma postagem na página de meu Facebook, que acreditei não ser verdade. Na verdade, nem dei atenção, nem me ocupei em ler, pensando e torcendo para que não fosse verdade. A postagem em questão trazia uma foto de um jovem com algumas marcas em sua testa. Para minha tristeza e descontentamento, alguns dias depois, o que eu queria que não fosse, era.

Um jovem foi amarrado em uma cadeira e, em sua testa, fora tatuado a seguinte frase: “Eu sou ladrão e vacilão”. Tudo isso, por um suposto roubo de bicicleta. Essa informação ficou em minha cabeça, em demasia, como uma tatuagem, não permitindo que eu a esquecesse. Difícil acreditar que isso poderia ocorrer. Bem verdade que o país passa por um momento de intensas fragilidades institucionais. Sem aqui querer ser nostálgico e defender o mito que o passado era maravilhoso, muito pelo contrário, nunca foi bonito não.

Se lembrarmos que esse fato narrado, supostamente, trata-se de tortura, não há como não fazer uma reflexão histórica e lembrar das barbáries ocorridas no período da Ditadura Militar, a tortura mesmo, defendida lá atrás e defendida hoje, por alguns. E se voltarmos mais ainda, chegaremos em 1500, até os portugueses, com suas barbaridades e tudo mais. Pobre povo, dos ricos aos pobres, pobre país.

Deste modo, essas coisas sempre ocorreram. E o Brasil nunca foi um mar de rosas, se fosse um mar seria de violência, sangue, corrupção, exploração, desigualdade social e abuso de poder, duma margem a outra. E é exatamente essas questões que me fizeram refletir sobre a tatuagem na testa.

“Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor, uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente em lugares públicos”. Erving Goffman, no livro: Estigma – Notas sobre a manipulação da identidade.

A citação faz parte do meu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC), da graduação de Jornalismo. E por que resolvi coloca-la aqui, nesse texto de opinião? Pra ser bem didático, para mostrar que estamos usando soluções muito atrasadas para lidar com problemas de hoje. Nós, brasileiros, fomos e estamos, realmente, reprováveis.

Nesse contexto, existem uns tantos, muitos, que estão aplaudindo o ato de violência cometido pelo tatuador. Estes são mais reprováveis ainda, pois eles não podem justificar o ato impiedoso por impulso, defendem por falta de conhecimento e humanidade, e outras coisas mais, mas não podem alegar agir por impulso.

É plausível refletir ainda, no ocorrido, o fato de todas as esferas judiciais serem desrespeitadas, não querendo aqui defender cegamente a justiça, não cabe a mim e nem faria isso. Eu desconfio da justiça da justiça. O fato é que houve um “julgamento” e aplicação da “pena’ de imediato, por quem não poderia fazer isso. É inaceitável. Em poucos minutos a vida do jovem ficou marcada, fisicamente e psicologicamente, para sempre. Não seria assim se ele fosse um homem rico, com status social ou com poder. Ou seja, se fosse um homem rico.

Ninguém se atreveria a amarrar um prefeito, deputado estadual, governador de estado, juiz de direito, ministro do STF, pastor de igreja, fazendeiro, empresário, senador, deputado federal, general do exército, marinha e aeronáutica, policiais de alta e baixa patente e tantos mais. Mesmo que, hipoteticamente, é claro, um figurão desses, viesse a ser acusado ou até mesmo culpado. Não, jamais. Eles merecem é aplausos e nossos lenços em suas testas, para enxugar o suor do constrangimento da vergonha pública. Se é que eles sentem constrangimento e vergonha.

Se fizermos uma lista com alguns nomes, de alguns que exercem as funções que citei, e realizarmos uma consulta de processo no site do tribunal de justiça, pronto, está lá, para que todos vejam. Processos e mais processos, e mais e mais. Acusações bem mais graves que um suposto roubo de bicicleta. Mas nós aqui de baixo jamais os tatuaremos, ao bem da verdade, nem acreditaremos. “O que? O prefeito? Não! O prefeito é um homem de bem! Esse processo ai é armação de quem não gosta dele”. E por ai vai, e vai e vai.

Logo, nossa “justiça”, feita por nossas próprias mãos irracionais, bárbaras e parciais, atinge os mais fracos, quem está mais vulnerável. Esses sim, amarraremos numa cadeira e os torturaremos até que o sangue escorra em suas faces e olhos e, depois, gravaremos e divulgaremos para o maior número de pessoas possível, para que elas se lambuzem com o sangue do, outrora, “culpado” e, agora, vítima, para mudarem de justiceiros para bandidos. O sangue que escorre vai deixando tatuagens nas testas dos que apóiam o ato. E o ciclo continua; fragilidades institucionais e estruturais, delitos, barbáries, sangue, barbáries e sangue e sangue e sangue....

E assim, nesse país que responde pelo nome de Brasil, terra de fragilidades institucionais, legislativas, executivas, judiciais, educacionais, religiosas, civis e de representações sociais, ou seja, das fragilidades estruturais, de lá do passado até a contemporaneidade, falta-nos testas para expor nossas vergonhas, crimes e delitos judiciais e morais.