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Falta-nos testas para tatuar nossas vergonhas

Por Junio Garcia

18 Jul 2017 às 18:15
Por Junio Garcia

Nessas últimas semanas vi uma postagem na página de meu Facebook, que acreditei não ser verdade. Na verdade, nem dei atenção, nem me ocupei em ler, pensando e torcendo para que não fosse verdade. A postagem em questão trazia uma foto de um jovem com algumas marcas em sua testa. Para minha tristeza e descontentamento, alguns dias depois, o que eu queria que não fosse, era.

Um jovem foi amarrado em uma cadeira e, em sua testa, fora tatuado a seguinte frase: “Eu sou ladrão e vacilão”. Tudo isso, por um suposto roubo de bicicleta. Essa informação ficou em minha cabeça, em demasia, como uma tatuagem, não permitindo que eu a esquecesse. Difícil acreditar que isso poderia ocorrer. Bem verdade que o país passa por um momento de intensas fragilidades institucionais. Sem aqui querer ser nostálgico e defender o mito que o passado era maravilhoso, muito pelo contrário, nunca foi bonito não.

Se lembrarmos que esse fato narrado, supostamente, trata-se de tortura, não há como não fazer uma reflexão histórica e lembrar das barbáries ocorridas no período da Ditadura Militar, a tortura mesmo, defendida lá atrás e defendida hoje, por alguns. E se voltarmos mais ainda, chegaremos em 1500, até os portugueses, com suas barbaridades e tudo mais. Pobre povo, dos ricos aos pobres, pobre país.

Deste modo, essas coisas sempre ocorreram. E o Brasil nunca foi um mar de rosas, se fosse um mar seria de violência, sangue, corrupção, exploração, desigualdade social e abuso de poder, duma margem a outra. E é exatamente essas questões que me fizeram refletir sobre a tatuagem na testa.

“Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor, uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente em lugares públicos”. Erving Goffman, no livro: Estigma – Notas sobre a manipulação da identidade.

A citação faz parte do meu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC), da graduação de Jornalismo. E por que resolvi coloca-la aqui, nesse texto de opinião? Pra ser bem didático, para mostrar que estamos usando soluções muito atrasadas para lidar com problemas de hoje. Nós, brasileiros, fomos e estamos, realmente, reprováveis.

Nesse contexto, existem uns tantos, muitos, que estão aplaudindo o ato de violência cometido pelo tatuador. Estes são mais reprováveis ainda, pois eles não podem justificar o ato impiedoso por impulso, defendem por falta de conhecimento e humanidade, e outras coisas mais, mas não podem alegar agir por impulso.

É plausível refletir ainda, no ocorrido, o fato de todas as esferas judiciais serem desrespeitadas, não querendo aqui defender cegamente a justiça, não cabe a mim e nem faria isso. Eu desconfio da justiça da justiça. O fato é que houve um “julgamento” e aplicação da “pena’ de imediato, por quem não poderia fazer isso. É inaceitável. Em poucos minutos a vida do jovem ficou marcada, fisicamente e psicologicamente, para sempre. Não seria assim se ele fosse um homem rico, com status social ou com poder. Ou seja, se fosse um homem rico.

Ninguém se atreveria a amarrar um prefeito, deputado estadual, governador de estado, juiz de direito, ministro do STF, pastor de igreja, fazendeiro, empresário, senador, deputado federal, general do exército, marinha e aeronáutica, policiais de alta e baixa patente e tantos mais. Mesmo que, hipoteticamente, é claro, um figurão desses, viesse a ser acusado ou até mesmo culpado. Não, jamais. Eles merecem é aplausos e nossos lenços em suas testas, para enxugar o suor do constrangimento da vergonha pública. Se é que eles sentem constrangimento e vergonha.

Se fizermos uma lista com alguns nomes, de alguns que exercem as funções que citei, e realizarmos uma consulta de processo no site do tribunal de justiça, pronto, está lá, para que todos vejam. Processos e mais processos, e mais e mais. Acusações bem mais graves que um suposto roubo de bicicleta. Mas nós aqui de baixo jamais os tatuaremos, ao bem da verdade, nem acreditaremos. “O que? O prefeito? Não! O prefeito é um homem de bem! Esse processo ai é armação de quem não gosta dele”. E por ai vai, e vai e vai.

Logo, nossa “justiça”, feita por nossas próprias mãos irracionais, bárbaras e parciais, atinge os mais fracos, quem está mais vulnerável. Esses sim, amarraremos numa cadeira e os torturaremos até que o sangue escorra em suas faces e olhos e, depois, gravaremos e divulgaremos para o maior número de pessoas possível, para que elas se lambuzem com o sangue do, outrora, “culpado” e, agora, vítima, para mudarem de justiceiros para bandidos. O sangue que escorre vai deixando tatuagens nas testas dos que apóiam o ato. E o ciclo continua; fragilidades institucionais e estruturais, delitos, barbáries, sangue, barbáries e sangue e sangue e sangue....

E assim, nesse país que responde pelo nome de Brasil, terra de fragilidades institucionais, legislativas, executivas, judiciais, educacionais, religiosas, civis e de representações sociais, ou seja, das fragilidades estruturais, de lá do passado até a contemporaneidade, falta-nos testas para expor nossas vergonhas, crimes e delitos judiciais e morais.


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