Polícia

Surto atendido por equipes de MT expõe realidade de comunidade isolada em área de litígio com o Pará

O atendimento a um homem de 34 anos em surto psicótico, realizado nesta semana pela Polícia Militar e por uma equipe médica de Paranaíta, trouxe novamente à tona uma realidade enfrentada há...

Surto atendido por equipes de MT expõe realidade de comunidade isolada em área de litígio com o Pará

O atendimento a um homem de 34 anos em surto psicótico, realizado nesta semana pela Polícia Militar e por uma equipe médica de Paranaíta, trouxe novamente à tona uma realidade enfrentada há décadas pelos moradores da Gleba São Benedito, comunidade pertencente ao município de Jacareacanga (PA), mas que, na prática, depende quase exclusivamente da estrutura de Mato Grosso para ter acesso a serviços essenciais.

A ocorrência aconteceu em uma propriedade rural da comunidade. Segundo a Polícia Militar, o homem apresentava comportamento agressivo, estaria ameaçando moradores, agredindo pessoas e danificando objetos da propriedade. Diante da situação, profissionais de saúde solicitaram apoio policial para que o atendimento pudesse ser realizado com segurança.

Quando as equipes chegaram ao local, encontraram o homem já contido pelos próprios moradores, que utilizaram cordas para imobilizá-lo e evitar novas agressões. Após a intervenção, ele foi encaminhado ao Hospital Municipal de Paranaíta, onde permaneceu sob cuidados médicos.

As vítimas decidiram não representar criminalmente contra o homem, mas o boletim de ocorrência foi registrado e encaminhado à Polícia Civil.

Uma comunidade que vive isolada

Embora a Gleba São Benedito pertença administrativamente ao município de Jacareacanga, no sudoeste do Pará, o acesso terrestre à comunidade ocorre praticamente por Mato Grosso, através de Paranaíta.

Na prática, isso significa que, sempre que há uma emergência médica, uma ocorrência policial ou qualquer situação que exija resposta rápida do poder público, são as estruturas mato-grossenses que acabam prestando atendimento.

Moradores afirmam que convivem diariamente com a ausência de serviços básicos e denunciam a falta de investimentos em áreas como saúde, educação, segurança pública, saneamento e infraestrutura.

O sentimento entre quem vive na região é de abandono.

O abandono vai além das ocorrências

A situação da Gleba São Benedito não é novidade. Ao longo dos anos, moradores relatam dificuldades para conseguir atendimento médico, acesso à educação de qualidade, policiamento e outros serviços essenciais garantidos pela Constituição.

As reclamações ganharam ainda mais repercussão recentemente durante o caso do produtor rural Jonavan Oliveira. Na ocasião, o advogado da família denunciou que, após o homicídio, familiares teriam sido orientados por policiais militares do Pará a realizar o transporte do corpo em um veículo particular, diante da falta de estrutura para o atendimento da ocorrência.

O episódio reforçou um problema frequentemente apontado por quem vive na região: a ausência do Estado em situações que exigem resposta imediata.

Uma disputa que se arrasta há décadas

A Gleba São Benedito integra uma área de aproximadamente 22 mil quilômetros quadrados que é alvo de disputa territorial entre Mato Grosso e Pará.

Embora o Supremo Tribunal Federal tenha mantido, em 2020, os limites oficiais que reconhecem a área como pertencente ao Pará, a discussão continua por meio de uma ação proposta por Mato Grosso.

Em junho deste ano, o ministro Flávio Dino homologou o primeiro acordo entre os dois estados no processo. O entendimento prevê ações voltadas à regularização fundiária da região e faz parte das audiências de conciliação conduzidas pelo STF.

O próprio relator já informou que uma nova rodada de negociações deverá tratar especificamente da cooperação entre os estados nas áreas de segurança pública e atendimento à população residente na região em litígio.

Enquanto a Justiça decide, moradores seguem esperando

Enquanto o impasse jurídico segue sendo debatido em Brasília, quem vive na Gleba São Benedito continua enfrentando uma realidade marcada pelo isolamento.

A ocorrência registrada nesta semana é mais um exemplo de que, mesmo localizada oficialmente no Pará, a comunidade depende da estrutura de Mato Grosso para receber atendimento em situações de emergência.

Para os moradores, o problema vai além da disputa por limites territoriais. O que está em jogo é o acesso a direitos básicos, como saúde, segurança, educação e dignidade, enquanto uma solução definitiva ainda não chega

Redação
05 de agosto de 2026
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