Agronegócio
Soja: fim do vazio sanitário libera plantio em MT, mas clima pode ditar ritmo da safra 2026/27
Com previsão de quase 48,9 milhões de toneladas, produtores devem esperar chuvas regulares antes de acelerar a semeadura; El Niño aumenta preocupação com irregularidade climática.
Com o fim do vazio sanitário da soja, previsto para 6 de setembro em Mato Grosso, os produtores entram oficialmente na fase de preparação para a safra 2026/27. A liberação, porém, não significa que as máquinas devem imediatamente tomar conta das lavouras. Para o setor produtivo, o principal fator que vai definir o avanço da semeadura será a regularização das chuvas.
A orientação é de cautela, principalmente diante da influência do El Niño e da possibilidade de instabilidade climática no início do ciclo. O momento de colocar a semente no solo deve ser definido a partir das condições de umidade de cada propriedade.
O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Cleiton Gauer, destaca que antecipar o plantio sem condições adequadas pode aumentar os custos e até provocar a necessidade de replantio.
“O produtor precisa tomar cuidado e observar as condições de umidade e de chuva antes de colocar a semente no solo. O fim do vazio sanitário permite o plantio, mas isso não significa que seja o momento ideal para semear.”
Para a safra 2026/27, o Imea estima uma produção de 48.882.049 toneladas de soja em Mato Grosso. A projeção leva em consideração fatores como condições climáticas, histórico de produtividade, manejo e nível tecnológico utilizado nas propriedades.
Segundo o analista de inteligência de mercado do Imea, Henrique Eggers, a expectativa é de que os produtores adotem uma postura semelhante à observada em outros ciclos e aguardem uma sequência mais consistente de precipitações, especialmente na segunda quinzena de setembro.
“Mais importante que a ocorrência das primeiras precipitações é a confirmação de volumes suficientes e regulares para garantir o estabelecimento adequado das lavouras”, explica o analista.
Chuva irregular preocupa
A instabilidade climática pode fazer com que o avanço mais expressivo da semeadura seja adiado. Um dos exemplos que ainda pesa sobre as decisões do setor é a safra 2023/24, também influenciada pelo El Niño.
Naquele ciclo, a irregularidade das chuvas prejudicou o estabelecimento das lavouras e contribuiu para que Mato Grosso registrasse uma das menores produtividades médias de soja dos últimos anos.
Além da falta de chuva, os produtores precisam lidar com outro problema recorrente: os chamados veranicos, períodos de estiagem que podem ocorrer justamente em fases importantes do desenvolvimento da planta, como floração, formação das vagens e enchimento dos grãos.
Chuvas isoladas também não são suficientes para garantir segurança à lavoura. Quando são seguidas por longos períodos secos, podem comprometer a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas, elevando o risco de replantio.
O excesso de água, por outro lado, também representa ameaça. Solos encharcados podem provocar erosão, perda de nutrientes e dificuldades no desenvolvimento das plantas. Já temperaturas elevadas aumentam a perda de água do solo e podem provocar estresse térmico.
Na colheita, o excesso de precipitações também pode causar perdas e comprometer a qualidade dos grãos.
Atrasos podem afetar milho e algodão
O comportamento do clima no início da safra de soja também terá reflexos sobre o calendário agrícola de Mato Grosso.
Caso ocorram atrasos na semeadura ou, posteriormente, na colheita da soja, a janela disponível para implantação das culturas de segunda safra pode ser reduzida, afetando principalmente o milho e o algodão.
Por isso, ainda não há como estabelecer com precisão qual será o ritmo do plantio em cada região do Estado.
“O Imea deve acompanhar semanalmente a evolução dos trabalhos, as condições climáticas e a situação das diferentes regiões do Estado”, afirma Henrique Eggers.
Ferrugem-asiática exige atenção desde o início
Mesmo com a autorização para iniciar o plantio, outro alerta permanece no radar dos produtores: o controle da ferrugem-asiática da soja, doença provocada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi e considerada uma das principais ameaças à cultura.
O fim do vazio sanitário não encerra a necessidade de vigilância. Pelo contrário, o monitoramento das áreas deve acompanhar todo o desenvolvimento da lavoura para que eventuais focos sejam identificados rapidamente.
De acordo com Eggers, as estratégias de manejo precisam considerar as características de cada propriedade, incluindo o potencial produtivo, as condições climáticas e o nível de infestação.
Em uma safra marcada por incertezas climáticas e custos elevados, o acompanhamento constante pode fazer diferença no resultado final. Mais do que plantar cedo, o desafio será acertar o momento de plantar.
