Polícia

Mato Grosso registra alta nos feminicídios e Patrulha Maria da Penha reforça combate à violência em Alta Floresta

Estado fechou 2025 com 54 feminicídios e mais de 53 mil ocorrências de violência doméstica, o maior número da série histórica; atuação preventiva busca impedir que ameaças evoluam para...

Mato Grosso registra alta nos feminicídios e Patrulha Maria da Penha reforça combate à violência em Alta Floresta
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, os números da violência contra a mulher em Mato Grosso impõem uma reflexão dura e necessária. O Estado fechou 2025 com o maior número de ocorrências de violência doméstica da série histórica: 53.556 registros em apenas um ano. Em Alta Floresta e região norte do estado, o trabalho preventivo da Patrulha Maria da Penha tem sido fundamental para garantir proteção às vítimas que possuem medidas protetivas de urgência.

Segundo a sargento Cléia, que atua diretamente no acompanhamento desses casos, o trabalho vai além da fiscalização.

“Não é apenas uma visita. É acompanhamento, orientação e presença do Estado. Muitas mulheres ainda têm medo, e a Patrulha existe justamente para que elas saibam que não estão sozinhas”, destaca.

Feminicídios voltam a subir

Segundo o Observatório Caliandra, ligado ao Ministério Público de Mato Grosso, Mato Grosso registrou 54 feminicídios em 2025 — o maior número dos últimos cinco anos.

A série histórica aponta:

  • 2020 – 62 casos

  • 2021 – 43

  • 2022 – 47

  • 2023 – 46

  • 2024 – 47

  • 2025 – 54


Embora 2020 ainda concentre o pico absoluto, o ano de 2025 representa uma nova curva de crescimento após um período de relativa estabilidade.

Além dos casos consumados, o Estado registrou 241 tentativas de feminicídio no mesmo ano — o maior número da série.

A maioria dos crimes ocorreu dentro das residências das próprias vítimas. Os principais motivadores foram separação, inconformismo com o fim do relacionamento, ciúmes e sentimento de posse.

A violência, na maioria das vezes, não começa com o homicídio. Ela evolui.

Violência doméstica bate recorde histórico

O feminicídio é o estágio extremo de um ciclo que começa muito antes. Em 2025, Mato Grosso registrou 53.556 ocorrências de violência doméstica, o maior número da série histórica iniciada em 2020.

Veja a evolução:

  • 2020 – 42.377

  • 2021 – 43.977

  • 2022 – 44.385

  • 2023 – 49.488

  • 2024 – 50.809

  • 2025 – 53.556

Em seis anos, foram 284.592 ocorrências formalizadas. O crescimento foi contínuo e estrutural.

A principal natureza registrada é ameaça, com 114.300 casos no período. Em seguida aparecem lesão corporal (59.605), injúria (35.634), difamação (17.557) e calúnia (10.390).

O descumprimento de medida protetiva praticamente triplicou, passando de 900 registros em 2020 para 2.292 em 2025.

A maioria das vítimas não tinha medida protetiva

Dos 54 feminicídios registrados em 2025, apenas sete vítimas possuíam medida protetiva ativa. As demais 47 não contavam com proteção judicial no momento do crime.

A maior parte dos assassinatos ocorreu dentro da residência da vítima ou do casal. Separação, inconformismo com o fim do relacionamento, ciúmes e sentimento de posse aparecem entre as principais motivações.

O impacto ultrapassa as estatísticas: 87 crianças e adolescentes ficaram órfãos de mãe em 2025.


Patrulha Maria da Penha: prevenção antes da tragédia

Diante desse cenário, a atuação da Polícia Militar de Mato Grosso ganha papel estratégico por meio da Patrulha Maria da Penha.

No IX Comando Regional, que atende Alta Floresta e municípios do Norte do Estado, a sargento Cléia explica que o trabalho é essencialmente preventivo.

“Primeiro precisamos entender o que é a rede de proteção. São instituições trabalhando articuladas: Assistência Social, Polícia Militar, setores especializados e sociedade civil organizada”, afirma.

Segundo ela, a Polícia Militar é a porta de entrada do sistema.

“O primeiro passo é a denúncia. A partir dela, a PM atua e as investigações seguem pela Polícia Judiciária Civil. Quando há necessidade de acompanhamento, entra a Patrulha Maria da Penha.”


Fiscalização que salva vidas

A Patrulha atua principalmente na fiscalização das medidas previstas na Lei Maria da Penha, realizando visitas periódicas às vítimas, monitorando descumprimentos e orientando sobre o ciclo da violência.

A estratégia é impedir que ameaças e agressões evoluam para homicídios.

“A violência muitas vezes começa de forma silenciosa: controle, humilhação, ameaça. Quando a mulher entende que isso já é violência e busca ajuda, ela aumenta as chances de romper o ciclo antes que seja tarde”, reforça a sargento.


Rede de proteção em Alta Floresta

Em Alta Floresta, a atuação é integrada com a Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, Criança e Idoso, Ministério Público, Judiciário e Assistência Social.

A presença da Patrulha Maria da Penha representa o acompanhamento contínuo, especialmente nos casos com medida protetiva.


Um recado direto às mulheres

Ao final da entrevista, a sargento Cléia deixou uma mensagem clara:

“Não aceite qualquer tipo de violência. A mulher precisa pensar primeiro em si. Não é egoísmo. É consciência de que, quando eu estou bem, eu consigo cuidar dos meus filhos e de quem está ao meu redor.”

Em um estado que registra recordes históricos de violência doméstica, a denúncia não é apenas um direito — é um mecanismo de sobrevivência.

Os números revelam ainda um dado preocupante: mesmo entre as vítimas de 2025, sete possuíam medidas protetivas de urgência no momento do crime. Outras 45 mulheres assassinadas não tinham qualquer proteção judicial ativa. O dado expõe dois desafios centrais no enfrentamento à violência: a dificuldade de acesso à rede de proteção e, em alguns casos, a necessidade de fortalecimento da fiscalização das medidas já concedidas.

Junho foi o mês mais violento do ano, concentrando 10 feminicídios em apenas 30 dias. O município com maior número de casos foi Sinop, com seis registros, seguido por Cuiabá, Várzea Grande e Lucas do Rio Verde. A maioria absoluta das ocorrências aconteceu dentro das casas das próprias vítimas, reforçando que o principal cenário da violência contra a mulher continua sendo o ambiente doméstico — justamente o espaço que deveria representar segurança.

O levantamento aponta ainda que os principais meios utilizados pelos agressores foram armas cortantes ou perfurantes, o que evidencia a brutalidade dos crimes e, em muitos casos, a proximidade física entre autor e vítima no momento do ataque.

Responsabilização penal

Entre 2020 e 2025, Mato Grosso condenou 142 réus por feminicídio, conforme dados do Observatório Caliandra, ligado ao Ministério Público de Mato Grosso. O levantamento analisou 299 crimes ocorridos no período. Em 2025, 91% dos casos foram denunciados pelo Ministério Público e tramitam no Tribunal do Júri, demonstrando avanço na responsabilização penal.

As penas aplicadas variaram de 1 a 63 anos de reclusão, com média aproximada de 19 anos. O tempo médio entre o crime e a sentença é de 2,4 anos. Parte das condenações já foi fundamentada na nova legislação conhecida como Pacote Antifeminicídio, que transformou o feminicídio em crime autônomo e ampliou a pena para até 40 anos de prisão.

O levantamento também identificou 10 absolvições e 46 casos de extinção da punibilidade, principalmente quando o autor morreu após o crime — seja por suicídio, confronto policial ou causas naturais durante a tramitação do processo.

Impacto que atravessa gerações

Em 2025, 87 crianças e adolescentes ficaram órfãos em decorrência do feminicídio. Em 2024, haviam sido 83. O crescimento mantém o alerta sobre os efeitos sociais prolongados dessa violência, que não atinge apenas a vítima direta, mas reestrutura famílias inteiras e amplia a vulnerabilidade social.

Já em 2026, mesmo nos primeiros meses do ano, o Observatório Caliandra contabiliza quatro vítimas de feminicídio em Mato Grosso, sendo uma delas com medida protetiva ativa. Os casos foram registrados em Nova Maringá, Chapada dos Guimarães, Lucas do Rio Verde e Cuiabá.

Os dados mostram que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ser episódico ou restrito a datas simbólicas. Ele exige vigilância permanente, fortalecimento da rede de proteção e atuação integrada das instituições antes que a ameaça se transforme em estatística.

As vítimas têm nome, idade e história

Os 54 feminicídios registrados em 2025 não são apenas números. São vidas interrompidas. Mulheres jovens, mães, adolescentes, idosas. Histórias que terminaram dentro de casa, muitas vezes diante de familiares.

Foto: reprodução G1

Entre as vítimas estão:

  1. Vitória Camily Carvalho Silva, 22 anos
  2. Heloysa Maria de Alencastro Souza, 16 anos
  3. Roseni da Silva Karnoski, 52 anos
  4. Gleici Oliboni, 42 anos
  5. Maquiane Brito Arruda, 28 anos
  6. Vânia Cristina Benini, 38 anos
  7. Jacyra Grampola Gonçalves da Silva, 24 anos
  8. Fabiana Cruz Amorim, 37 anos
  9. Gabriela da Fonseca Moura, 36 anos
  10. Emilly Azevedo Sena, 16 anos
  11. Gislaine Ferreira da Silva, 33 anos
  12. Antonieta Barroso dos Santos, 51 anos
  13. Jthesica Barbosa, 24 anos
  14. Ana Paula Abreu Carneiro, 33 anos
  15. Gabrieli Daniel Sousa de Moraes, 31 anos
  16. Regiane Alves da Silva, 29 anos
  17. Júlia Nascimento Barbieri, 22 anos
  18. Vitória Rodrigues Farias, 23 anos
  19. Fátima da Silva Barbosa, 42 anos
  20. Nerbys Osmary Cabrera Kreizi, 33 anos
  21. Maria Silveira Pereira, 63 anos
  22. Conceição Almeida Ferreira, 50 anos
  23. Jucielly Ribeiro, 30 anos
  24. Paulina Santana, 52 anos
  25. Yasmin Farias Cardoso, 27 anos
  26. Maria Selma Rocha dos Anjos, 51 anos
  27. Quitéria dos Santos Costa, 29 anos
  28. Vanusa dos Santos, 43 anos
  29. Tainara Raiane da Silva, 21 anos
  30. Ivaldete Coutinho de Oliveira Polesello, 58 anos
  31. Solange Aparecida Sobrinho, 52 anos
  32. Sabrina Soares da Silva, 26 anos
  33. Crisalda Conceição Sousa, 32 anos
  34. Ednamara da Silva Pereira, 28 anos
  35. Ana Maria dos Santos, 63 anos
  36. Leovani da Silva de Souza, 43 anos
  37. Elaine Rosa Araújo, 25 anos
  38. Rute Cardoso Pereira, 27 anos
  39. Ketlhyn Vitória de Souza, 15 anos
  40. Andressa Rodrigues de Oliveira, 25 anos
  41. Adriana Costa da Silva, 33 anos
  42. Janaina Carla Portela Santin, 43 anos
  43. Maria Aparecida Gonçalves da Silva, 39 anos
  44. Dalila Rodrigues do Nascimento, 75 anos
  45. Geovana Diogo da Silva, 21 anos
  46. Luzia da Silva Oliveira, 68 anos
  47. Maryelly Ferreira Campos, 16 anos
  48. Andreia Ferreira de Souza, 31 anos
  49. Ana Beatriz Cruz de Lima, 23 anos
  50. Edilaine Machado Dias, 35 anos
  51. Juceli Ribeiro Caju Boa Morte, 30 anos
  52. Dione Martins Vincensi, 71 anos

Há vítimas de 15, 16 e 21 anos. Há mulheres com mais de 70 anos. A violência não escolhe faixa etária. O que une esses casos é o contexto de violência doméstica e de gênero.

Um dos casos que gerou divergência estatística foi o da adolescente Emelly Beatriz Azevedo Sena, de 16 anos, grávida de nove meses, assassinada em Cuiabá. Inicialmente tratado como homicídio, o crime foi reclassificado como feminicídio pelo Ministério Público, elevando para 54 o total oficial considerado pelo Observatório.

Sistema reage, mas ainda corre atrás da tragédia

Entre 2020 e 2025, Mato Grosso registrou 299 feminicídios. No mesmo período, 142 réus foram condenados. Dez foram absolvidos e 46 tiveram a punibilidade extinta, principalmente porque morreram após o crime — seja por suicídio ou confronto.

Os feminicídios representam 56% de todos os assassinatos de mulheres no estado, o que demonstra que a maioria das mortes femininas violentas está diretamente ligada à condição de gênero.

O tempo médio entre o crime e a sentença é de 2,4 anos. Embora haja avanço institucional, o dado evidencia que a resposta do Estado ainda ocorre, na maioria das vezes, depois da tragédia consumada.

Dois casos ocorridos em 2025 já foram julgados no mesmo ano, em Confresa e Nobres, com penas superiores a 35 anos de prisão, demonstrando maior celeridade em situações específicas.

Mas, apesar das condenações, a estatística principal continua sendo a perda irreversível: 87 crianças ficaram órfãs somente em 2025.

Os números mostram que a atuação da Patrulha Maria da Penha e da rede de proteção não é apenas preventiva, é uma linha direta entre a ameaça e a possibilidade de evitar que mais nomes sejam adicionados a essa lista.

Redação
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